 NOTA
INTRODUTÓRIA
O livro que o leitor tem entre mãos pretende ser apenas oferecer
um primeiro contributo para o estudo de um dos mais interessantes mitemas
da nossa cultura nacional.
O Marquês de Pombal trata-se de facto de uma das figuras mais imponentes
do imaginário histórico dos saltos e sobressaltos da nação
portuguesa, mas também, como é inegável, uma das
personalidades mais controversas.
A apreciação da sua acção e obra política
ainda continua a concitar opiniões apaixonadas e antinomias quer
entre as elites intelectuais quer até entre o povo menos instruído.
Basta que façamos uma simples e breve sondagem popular para ficarmos
surpreendidos com pareceres divergentes sobre Pombal.
O filopombalismo e o antipombalismo transformaram-se, com efeito, em duas
correntes culturais associadas a posições políticas
e ideológicas bem marcadas ao longo dos últimos dois séculos.
Estas correntes radicalmente antagónicas no modo de avaliar a acção
política de Carvalho e Melo geraram um mito bipolar do Primeiro-Ministro
de D. José I: um mito pessoal de face luminosa que contrasta com
uma outra face de matiz bem negro.
O presente trabalho de natureza exploratória visa perscrutar a
mitogénese e identificar analiticamente o primeiro grande momento
deste processo de mitificação, assim como alguns dos seus
mitógrafos e ainda aqueles que consideramos, entre outros, como
sendo os textos fundadores mais emblemáticos deste mito. Paralelamente,
procuramos lançar algumas pistas conclusivas acerca das funcionalidades
e significados deste mito histórico. Assim sendo, o nosso estudo
pretende ser, portanto, um desafio à investigação,
ou se quisermos, mesmo uma provocação...
Pensamos que o grau de pregnância e permanência do mito de
Pombal na cultura e mentalidade dos portugueses explica, em grande medida,
a dificuldade ainda hoje sentida de encontrar consenso entre os historiadores
na apreciação serena e crítica do significado da
obra política, social e cultural do Ministro Sebastião José
de Carvalho e Melo.
Investir na compreensão do processo de construção
do mito pombalino será certamente uma forma pertinente de abrir
caminho para o desanuviamento das paixões ideológicas que
barram muitas vezes a possibilidade de se fazer uma crítica histórica
séria e descentrada dos tradicionais pólos “partidários”
que enfermam as análises.
Ao lado de outros mitos que povoam o nosso imaginário colectivo,
como o mito dos Judeus, o mito dos Jesuítas, o mito das origens
sacrais da nacionalidade, o mito da mulher, o mito do Quinto Império
e do Rei Encoberto, o mito do Marquês de Pombal não é
certamente um dos mitos menores. Mas é sem dúvida um dos
mitos mais fracturantes e um dos menos estudados.
Deixamos aos leitores interessados pelos temas menos comuns da nossa cultura
este pequeno livro como primeira reflexão sobre este assunto que
se constitui como objecto de análise histórica e literária.
Esta nossa prospecção hermenêutica cumprirá
a sua missão acima de tudo se vier a constituir estímulo
para estudos mais aprofundados e globais do fascinante fenómeno
de mitificação do Marquês de Pombal.
Os Autores
O
MITO DO MARQUÊS DE POMBAL:
Construção e desconstrução
“O herói está omnipresente, na política como
na história.
No topo da hierarquia encontramos a figura
carismática do Salvador, herdeira e adaptada do imaginário
religioso (...). O herói funciona como condensador e amplificador
de uma mensagem. Ele representa uma variedade larga de projectos e expectativas”.
Lucian Boia
A problemática das imagens de Pombal
O Primeiro-Ministro de D. José I é uma das figuras políticas
do nosso país sobre quem mais se escreveu tanto em Portugal como
no estrangeiro. Escreveu-se mais sobre o que se quis que a sua acção
significasse e menos sobre o que ela significou de facto.
Por isso, muita da literatura produzida em torno do Marquês de Pombal
está minada ideologicamente, na medida em que este político,
“déspota” e “iluminado”, foi mitificado
e usado como bandeira e símbolo dos ideais revolucionários
que, ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século
XIX, os movimentos laicos, anticlericais e antilegitimistas, quiseram
implantar .
A Maçonaria preponderou, sem dúvida, neste esforço
mitificador do Primeiro-Ministro de D. José I, instrumentalizando
a sua glorificação como bandeira ideológica de combate
para depor e substituir a velha ordem social, teológica e absolutista.
Daí as imagens estereotipadas e desenraizadas da verdade histórica
de um Pombal como percursor da Revolução Francesa, dos Direitos
Humanos, dos valores liberais, da liberdade de opinião e de consciência
e, numa idealização mais extrema, da própria Democracia...
Contra os filopombalistas que fizeram de Sebastião José
de Carvalho e Melo o Prometeu ou o Hércules português, o
herói do progresso e da iluminação de Portugal, inimigo
visceral do obscurantismo, da hidra jesuítica, os antipombalistas
teceram uma lenda negra deste ministro, fazendo dele o Nero Português,
uma tempestade que semeou apenas desgraças, desordem e impiedade.
Donde o mito bipolar de Pombal!
Condicionadas em grande medida pelo que representou a campanha antijesuítica
pombalina, muitas das análises da figura política de Sebastião
José produzidas pela historiografia portuguesa e estrangeira estão
enfermadas ideologicamente. Daí que seja fácil encontrar
tanto o elogio mais abnegado como a crítica mais feroz a esta marcante
figura da história portuguesa .
Borges de Macedo identifica três grandes correntes interpretativas
que divergem na avaliação do desempenho político
de Pombal: «Uma primeira corrente tem considerado a acção
de Pombal como catastrófica para o País, que precisa de
ser defendida contra governantes da sua natureza ou ideologia. Outra toma-o
como o percursor do laicismo anticlerical; ele teria, por essa via, posto
o ‘dedo na ferida’ quanto às causas da decadência
de Portugal. Portanto, para remover essa decadência, era preciso
‘continuá-lo’. Problemas práticos, julgam os
autores. Uma terceira corrente (onde toma posição corajosamente
Camilo Castelo Branco) entendia que Carvalho e Melo deve ser ‘julgado’
quanto aos meios de governo que praticou e ao conteúdo da sua actividade,
no que se refere à ligação desta com a Moral»
.
Em virtude destas apreciações tão contrastantes se
compreende o pedido quase angustiado do historiador Ernst Bloch aos historiadores
portugueses: «Pombalistas, antipombalistas, dizei-nos tão
somente quem foi Pombal» .
O período pombalino é indubitavelmente um dos períodos
da nossa historiografia mais marcado por «interpretações
ideológicas da história», dividindo opiniões
e perspectivas de recomposição do passado, como bem nota
Reis Torgal que interpreta assim o significado do pombalismo: «Ele
significou a viragem decisiva do absolutismo, que deixa de ser condicionado
dominantemente pela velha nobreza ‘senhorial’ e pelo clero
ultramontano para ser, em termos políticos, a afirmação
de uma burguesia intelectual e mercantil, de um novo clero e de uma nova
nobreza de Estado. Por outro lado, representa a primeira grande tentativa,
que as próprias circunstâncias extremamente graves haviam
criado, de encarar de frente os grandes problemas económico-políticos
do país, o que implicava alterações fundamentais
geradoras de situações de conflito. Ao nível ideológico,
orienta-se, à sua maneira, pelas vias do ‘absolutismo esclarecido’,
afirmando assim sem qualquer subterfúgio, a origem directa do poder,
a concentração total da soberania do rei (e, na prática,
no seu gabinete) e a oposição sistemática ao ultramontanismo,
até aí considerado como ideologia político-eclesiástica
oficial, cobrada de uma defesa viva de teses galicanistas, que até
então eram consideradas como heterodoxas» .
Assim sendo, o nosso sentido interpretativo deverá ser marcado
pelo esforço, que sabemos árduo, de despir a roupagem ideológica
que a nossa historiografia herdou e, nessa linha, percorrer tanto quanto
possível uma via complexiva que desbrave as motivações
profundas passíveis de nos permitir fazer uma aproximação
do significado da construção do mito do Marquês de
Pombal ao longo do período do liberalismo português. Procuraremos
entender esta construção mitográfica num quadro de
transformação de macro-estruturas, ou seja, da mentalidade
política e social, e dos paradigmas culturais que tinham informado
a vida portuguesa nos séculos precedentes .
Para o efeito, desminar ideologicamente muita da historiografia produzida
em torno desta figura controversa para limpar a imensa poeira das visões
apaixonadas (e que ainda enferma algumas leituras dos nossos manuais)
e que impede a construção de uma visão equilibrada
do seu real papel histórico. É hoje pertinente empreender
uma nova leitura global da época pombalina para deslindar criticamente
os seus enigmas e estigmas. A tarefa preliminar que importa realizar será
certamente despir muita da roupagem mítica que esconde a identidade
real da acção histórica deste político no
seu contexto vital.
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