IMPRESSÕES DA SUÉCIA:
Mitos e (des)encantos
“O começo da liberdade na Europa, e de toda a liberdade
existente entre os homens, encontra-se na Escandinávia”.
Montesquieu
“Quando
a vaidade vem ao de cima, cheira mal”
Provérbio
Sueco
A
Suécia é um país admirável, aliás
como toda a região da Escandinávia a que pertence,
região formada também pela Noruega e a Dinamarca, podendo,
segundo algumas perspectivas, ser incluída nesta região
histórico-cultural a Finlândia e a Islândia. A
belíssima costa sueca, banhada pelo Báltico, esboroa-se
no mar formando um conjunto impressionante de 24 mil ilhas onde hoje
estacionam milhares e milhares de pequenas e médias embarcações,
pois os suecos são dos povos que mais barcos possuem per
capita. Berço dos Vikings, a Suécia é um
dos reinos mais antigos da Europa, mantendo ainda hoje a sua prestigiada
coroa real, embora com funções exclusivamente representativas
e cerimoniais.
À extraordinária
beleza da sua paisagem irrigada por serpenteantes canais e atapetada por uma
luxuriante vegetação fundamentalmente alpina e árctica
associa-se a simpatia afável dos seus cidadãos, a excelente organização
social e o respeito quase escrupuloso pelas básicas regras cívicas.
Os suecos sabem acolher como poucos os estrangeiros com atenção,
saber e discrição. Não são, ao contrário
do que se poderia pensar metendo no mesmo saco todos os povos nórdicos,
um país de mentalidade xenófoba ou pouco simpática para
os forasteiros. Pelo contrário, devido, em boa medida, à história
de nomadismo dos povos que formaram este país, os suecos são
um povo geralmente sensível e aberto a culturas e a raças diferentes.
Recorde-se que têm desenvolvido uma política de preservação
notável, no seu seio, da cultura peculiar de um povo indígena,
o povo Sami, que habita a região da Lapónia. Há inclusive
uma tradição sueca de não recusar asilo político
a quem lhe pede por razões de perseguição política,
religiosa ou em nome de qualquer outra discriminação.
A sua capital, Estocolmo, arquipélago de ilhas separadas por
uma complexa rede de canais, é uma cidade rica em história
e em cultura. Possuindo mais de cem museus bem organizado e cuidados,
tem uma rede turística bem informada e documentada com passes
não muito caros que permitem aos visitantes conhecer a mentalidade
e a história deste país com uma certa profundidade.
Estocolmo, como não vi em nenhuma outra cidade europeia, é a
cidade das crianças, e não apenas por ser a capital
da Pipi das Meias Altas que lá tem direito a um belo museu
com todos os seus apetrechos que fazem o gáudio dos mais pequenos.
O governos sueco, cujo conselho de ministros é constituído
maioritariamente por mulheres, tem promovido uma política
séria de natalidade que tem dados os seus frutos. Dá-se às
mães excelentes condições para darem à luz
e educarem os filhos nos primeiros meses de vida, com possibilidade
de obterem licenças de parto para além de um ano. Nas
ruas serenas das cidades suecas, onde os condutores são zelosamente
respeitadores das regras de trânsito, não caindo em
desvarios nem em velocidades desenfreadas, os pais passeiam com os
seus filhos por todo o lado de carrinho, entrando nos museus, nos
cafés, andando pelos jardins, pelos passeios. As crianças
dão vida nova à cidade e a cidade está adaptada
para recebê-las com infra-estrutras adequadas. O mesmo se passa
em relação ao extremo cuidado e simpatia que se verifica
no acolhimento e integração das pessoas com deficiências
físicas. A Suécia é de facto uma sociedade inclusiva
que nas principais cidades se vai tornando também coloridamente
cosmopolita, assimilando raças e culturas diferentes.
A aposta
ecológica é outra das políticas sociais exemplares da
Suécia. O respeito escrupuloso pela natureza, o incremento da exploração
de energias renováveis que permitirão a este país libertar-se
a médio prazo da dependência do petróleo, fazem deste território
uma espécie de paraíso ecológico. É espantoso o
recurso à bicicleta como transporte dominante e mesmo massivo nas cidades,
que diga-se, em abono da verdade, é facilitado pelo seu relevo pouco
acidentado.
Ao percorrermos
a Suécia de hoje, o país da banda musical Abba que muito sucesso
teve foram de fronteiras, e contemplarmos o seu progresso, uma questão
se nos aflora no pensamento? Como foi possível um povo considerado dos
mais violentos e bárbaros (os Vikings que assolaram, no coração
da Idade Média, as costas europeias até ao mediterrâneo
espalhando o terror e a destruição) se ter tornado hodiernamente
um modelo de civilização? Na minha viagem recente à Suécia
para participar no ISCHE 28 (International Standing Conference for History
of Education) realizado na Universidade de Umeä, tive oportunidade de
fazer esta pergunta a suecos eruditos e a menos eruditos. Aliás, os
suecos em geral, mesmo os considerados menos eruditos, têm um nível
cultural acima da média se compararmos com o que se encontra no resto
da Europa, nomeadamente na Europa do Sul. Todos os suecos que eu questionei
directamente sobre este problema foram unânimes em afirmar que a pregação
cristianismo e a conversão dos vikings tiveram um papel decisivo neste
processo de transformação civilizacional. A modelação
de uma nova cultura e de uma nova mentalidade à luz dos valores cristãos
foi o factor-chave, primeiro sob a forma católica (na Idade Média)
e depois sob a forma protestante (na Idade Moderna) a que os suecos aderiram
maioritariamente aquando da reforma luterana.
Como todos
os países europeus, a Suécia passou por várias fases históricas
marcadas pela sucessão de dinastias monárquicas e por conflitos
vários com povos circunvizinhos. Teve também a sua era imperial
dourada em que agudizou a ambição de domínio dos povos
irmãos da Noruega, da Finlândia e da Dinamarca. Nos dois grandes
séculos da época moderna, sobressaem duas grandes figuras imperais:
no século XVI, a figura quase mítica do monarca Gustav Erikson
Vasa; e, no século XVII, século em que a Suécia se torna
uma das grandes potências europeias, a figura de Gustavus Adolphus e
a sua participação bem sucedida na Guerra dos trinta anos que
opôs protestantes e católicos.
Mas nos últimos
dois séculos a Suécia convenceu-se de que a existência
pacífica era a melhor maneira de alcançar um progresso sólido.
Conseguiu promover e consolidar uma cultura e uma política de paz de
longa duração. É talvez hoje um dos poucos estados da
Europa e do mundo que conhecem um período mais duradouro de paz contínua. É verdade
que desde 1814, ano da sua última campanha militar que levou à anexação
da Noruega (tendo-se esta desligado pacificamente do domínio sueco em
1905), nunca mais entrou em guerra, tendo persistido numa política de
neutralidade e não alinhamento em alianças militares com outros
países, o que lhe evitou enredar-se nas duas grandes guerras mundiais
do século XX.
Do ponto
de vista político-social a Suécia é um dos países
com mais antigas tradições democráticas, que vêm
desde as assembleias locais aos parlamentos, uma espécie de cortes,
em que o poder central procurava promover a participação do povo
nas decisões. Aliás, está ainda hoje bem patente na mentalidade
e cultura suecas o sentimento de paridade entre todos os cidadãos. Cai
mal entre os suecos aqueles que se procuraram destacar ou exibir socialmente
procurando uma diferenciação e um destaque vaidoso e sobranceiro
em nome de cargos políticos, culturais ou outros. A ideia da igual dignidade
das diferentes profissões e funções sociais é um
dos aspectos da grandeza civilizacional da Suécia. Ilustrativo disto
mesmo é o facto de em alguns museus ou instituições públicas
como o edifício onde está sediada a Câmara Municipal de
Estocolmo e onde se oferece o jantar festivo aos galardoados com o prestigiadíssimo
prémio Nobel sueco, encontrarmos quadros na parede quer de escritores,
artistas e estadistas famosos como de assalariados que deram a mão-de-obra
para construir o monumento.
Do ponto
de vista económico a Suécia era um país modesto até ao
final do século XIX e princípios do século XX, vivendo
essencialmente da actividade agrícola e marcado por uma geografia humana
dominantemente rural.
Conheceu
o seu grande impulso económico na sequência da II Guerra Mundial,
beneficiando da sua não participação no conflito e aproveitando
do seu apoio à reconstrução da Europa arruinada pela guerra
para consolidar o seu tecido industrial começado a desenvolver-se duas
ou três décadas antes, com especial predomínio da manufactura
madeireira e a exploração de minérios. Os anos 50 e 60
catapultaram este país para a vanguarda dos povos mais progressivos.
O seu modelo de desenvolvimento passou a ser gabado pelos que viam na Suécia
a via do futuro. A estabilidade política (com governos do mesmo
partido que permaneceram décadas no poder) aliada à criatividade
e a investimentos consistentes fizeram deste povo agrícola um povo rico
baseado numa economia de fontes diversificadas.
O modelo
social, económico e cultural sueco, na forma como foi visto e ajuizado
pelos olhares estrangeiros, produziu também alguns mitos resultantes
de generalizações e percepções mal fundadas e desfocadas,
alguns dos quais nos foram ensinados aqui em Portugal até nos bancos
da escola. Vale a pena elencar e desconstruir três desses mitos: a Suécia
vista como o país do suicídio, a Suécia como
o país da liberdade sexual e do amor livre, e a Suécia
como o país do Estado Socialista.
A Suécia foi dos primeiros países a divulgar estatísticas
rigorosas sobre o suicídio como causa de morte. Tal divulgação
estatística colocou-a no pódio dos Estados com mais
incidência deste fenómeno social em comparação
com os índices de suicídios dos outros países
onde não havia estatísticas fidedignas sobre o assunto,
ou onde o problema era um assunto tabu. Este conhecimento estatístico
relativo levou o presidente norte-americano Dwight Eisenhower a tentar
descredibilizar, em 1960, num discurso transmitido pela televisão,
o famigerado retrato da “sociedade modelo” sueca cravando-lhe
o rótulo de “país do suicídio”.
Hoje sabe-se com mais rigor que, com base num trabalho estatístico
comparado de dados mais rigorosos de que dispomos, as taxas de suicídio
suecas inscrevem-se no quadro do que é normal na Europa, ou
em alguns casos mesmo abaixo.
Algo semelhante se passou em relação à ideia
generalizada da Suécia como paraíso do sexo ou da liberalização
sexual em resultado de filmes que granjearam grande sucesso nos anos
50 e 60 do século XX, os quais incluíam certas cenas
de nudez física e de relações sexuais (que hoje
talvez as classificássemos de ingénuas), num tempo
em que tais exibições eram pouco habituais na cultura
cinematográfica. Embora tivesse havido uma grande abertura
da sociedade sueca desde muito cedo ao uso de contraceptivos e a
uma atitude mais tolerante perante a nudez física, as estatísticas
sobre o casamento, o divórcio e a infidelidade estão
mais ao menos ao nível do que se verifica no resto da Europa.
Onde a Suécia leva positivamente a melhor é no que
respeita à prevenção da gravidez das adolescentes
resultante do sucesso de um planeamento familiar bem programado,
assim como na prevenção das doenças sexualmente
transmissíveis como é o caso da sida, em que as taxas
incidência são das mais baixas do mundo.
Por fim, outro mito que se generalizou internacionalmente foi o mito
do Estado Socialista sueco, qual concretização
ideal do projecto marxista do estado super-protector. Sendo certo
que o modelo do seu Estado-Providência é um dos mais
bem conseguidos do mundo, ele não assenta em qualquer doutrina
comunista nem tem nada de comparável às velhas ditaduras
socialistas, mas constitui uma espécie de terceira via dentro
dos parâmetros de uma social democracia moderna, em que ao
lado de um forte incremento económico de carácter capitalista
se procurou desenvolver um modelo social de estado assistencialista
moderno alimentado por uma forte tributação fiscal
capaz de garantir aos cidadãos protecção qualificada
no campo da saúde, da educação, etc. O alto
sentido cívico e comunitário dos suecos desenvolveu
uma cultura de cumprimento fiscal, em que o pagamento de impostos é visto
como um dever que importa honrar, do qual o cidadão sabe que
investe em prol do bem próprio e da sociedade de que é membro,
pois a tributação a que está sujeito reverte
em serviços da alta qualidade que o Estado presta exemplarmente
como em poucos outros países .
Este modelo bem sucedido permite ter um sistema saúde e de
ensino esmagadoramente público de alta qualidade e gratuito.
Há uma curiosa tradição sueco dos jovens chegarem
mais tarde aos bancos da universidade do que os do resto da Europa
em geral. Pois, muitos jovens têm o hábito, completado
o ensino secundário, de tirarem um, dois ou três anos
para porem a mochila às costas e viajarem pelo mundo. Procuram
conhecer outros povos e culturas, empenham-se em organizações
solidárias, ou simplesmente aprendem outras línguas
e adquirem outras competências. Depois voltam mais maduros
ao seu país para concorrerem à universidade. Aliás,
o povo sueco em geral investe muito em viagens culturais de lazer,
sendo dos povos que mais sai periodicamente das suas fronteiras.
A Madeira tem sido desde há décadas um dos destinos
turísticos muito procurados pelos suecos. De facto, isso reflecte-se
no conhecimento que boa parte dos suecos tem da nossa ilha. Tive
oportunidade de questionar suecos e suecas sobre o seu conhecimento
de Portugal e logo ressaltou a sua predilecção pela
paisagem e pelo clima madeirense. Aliás, fiquei impressionado,
na pesquisa que fiz da bibliografia em Língua Sueca sobre
Portugal existente nas bibliotecas públicas e universitárias
daquele país, ao verificar que predominavam os livros sobre
a Madeira. Contam-se às centenas os livros em língua
sueca sobre a paisagem, a gastronomia, a fauna e a flora, a etnografia
e a antropologia, sem falar de inúmeros roteiros turísticos
da Pérola do Atlântico. De facto, nas conversas com
os suecos foi fácil verificar o fascínio e o carinho
com os que suecos falam desta ilha portuguesa, tendo encontrado facilmente
muitos que já a tinham visitado ou que tivessem desejo de
visitá-la.
Com estas
impressões que aqui registamos não queremos fazer da Suécia
um país perfeito, tanto mais que os próprios suecos tem um grande
sentido de auto-crítica e estão permanentemente a identificar
e a fustigar criticamente com acuidade os seus problemas, que os têm
de facto como qualquer país. Entre esses podemos destacar o chamado
alcoolismo de fim-de-semana como forma delirante de divertimento, como o problema
da sua excessiva frota de pequenos barcos pouco controlada e legalizada, a
migração crescente de população para as grandes
cidades, a crise económica dos anos 70 e o menor desempenho dos anos
90, uma certa tradição de assassínio de políticos
famosos, como foi o caso de Olof Palme em 1986, o chefe de governo que era
conhecido por ser muito sensível aos problemas do Terceiro Mundo, etc.
Em suma, como aprecia o desmitificado Ricard Hill, sagaz observador
dos povos europeus: “Na Verdade, os suecos são tão
humanos e apresentáveis como qualquer outro povo. Até têm
fraquezas como nós, mas conseguem mantê-las sob controlo.
Talvez o que nos surpreende mais nos suecos seja o facto de nunca
serem excessivos – nem mesmo na higiene! – e de às
vezes serem irritantemente equilibrados. A sua atitude resume-se
na palavra lagom, que significa nem de mais, nem de
menos, apenas o necessário” .
No entanto, a resolução dos nossos problemas estruturais
e o nosso deficit de desenvolvimento tem muito a aprender com o que
a Suécia alcançou e do modo como alcançou o
progresso de que goza hoje. Em primeiro lugar, com grande sentido
cívico e de responsabilidade social, depois com uma programa
séria, comprometida e coerente, e ainda com uma aposta na
promoção dos cidadãos e da valorização
do seu esforço laboral, na procura criativa de alternativas
e de saber aproveitar as oportunidades com trabalho intenso e competente
assente numa formação cuidada.
O caminho
sueco continua a ser o caminho da Europa do progresso que nos ensina que a
promoção da economia não pode ser feita em detrimento
do cuidado e da promoção das pessoas.
Umeä,
19 de Agosto de 2006
Recorde-se as
interessantes reflexões sobre a Suécia de Manuel
Antunes: Orlando Cruz (Pseud.), “Suécia modelo de
desenvolvimento?”, Brotéria, 95, 1972,
76-81; e “Suécia, via do futuro?”, in Obra
Completa do Padre Manuel Antunes, Edição
Crítica, Tomo II: Educação e Sociedade,
coord. de José Eduardo Franco, Lisboa, F. Calouste
Gulbenkian, 2005, p. 195-196.
Richard Hill, Nós,
Europeus, Porto, Asa, 2001, p. 241.
2. Richard Hill, Nós,
Europeus, Porto, Asa, 2001, p. 241. |